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Análise: Luís Soares

  • 11 de out. de 2015
  • 5 min de leitura

O conto “Luís Soares”, do escritor Machado de Assis, pertence à fase Romantica do autor. Machado de Assis, através das personagens, critica a sociedade que vive de aparencias por meio de Luís, que se vê humilhado quando não possui a riqueza que gostaria.


O conto é narrado em 3° pessoa, sendo um narrador-observador. Tratando de casamento, heranças e negócios, ele busca mostrar a verossimilhança da sociedade carioca do século XIX, ajudando também para as discursões acerca do valor documental da literatura. Está contido no livro “Contos Fluminenses”, coletânea anterior à fase madura do autor.


A escolha do conto Luís Soares para análise se justifica na medida em que o texto é fruto do contexto em que está inserido seu escritor. O texto narra a história de Luís Soares, mancebo que herdou fortuna de seus pais, mas que passou a trocar o dia pela noite e não gerenciou a herança recebida. Quando ficou ciente do fim de seus contos de réis, três alternativas lhe vieram à cabeça para solucionar o problema: um emprego em algum órgão do governo, um casamento ou uma herança. A primeira opção era a menos interessante para o rapaz. O texto tem como palco a Corte do segundo reinado e como personagens pessoas pertencentes às principais camadas da sociedade carioca. A verossimilhança dá o tom da história narrada no conto:


Soares acrescenta que a fortuna suplantara a natureza, deitando-lhe no berço em que nasceu uma boa soma de contos de réis. Mas esquecia que a fortuna, apesar de generosa é exigente, e quer da parte dos seus afilhados algum esforço próprio. A fortuna não é Danaide. Quando vê que um tonel esgota a água que se lhe põe dentro vai levar os seus cântaros a outra parte. Soares não pensava nisto. Cuidava que os seus bens eram renascentes como as cabeças da hidra antiga. Gastava às mãos largas; e os contos de réis, tão dificilmente acumulados por seu pai, escapavam-se-lhe das mãos como pássaros sequiosos por gozarem do ar livre (ASSIS, 2006, p. 50).


Raymundo Faoro, que estudou a sociedade do século XIX, destaca que a herança e um casamento bem arranjado eram duas formas comuns das pessoas das camadas sociais abastadas resolverem seus problemas financeiros e de se conseguir viver na tranquilidade: “O traço comum dessa legião de filhos e sobrinhos aquinhoados pela morte virá do horror ao trabalho. Todos cultivam o bom e elegante ócio” (FAORO, 1976, p. 208).

Luís Soares não gostava da ideia de trabalhar. Porém, como sua única opção de casamento era sua prima Adelaide, que tinha somente trinta contos de réis de dote, o rapaz resolveu optar pelo caminho do funcionalismo público do século XIX. Ao escolher a opção pelo emprego Luís Soares vislumbrava a herança de um tio idoso e achacado de doenças a quem ele iria pedir que o ajudasse a obter o trabalho. Com a opção desse caminho ele pretendia conseguir a simpatia do tio que não tinha filhos para deixar a herança:


Terceiro meio, e o melhor. Vai à casa de teu tio, angaria-lhe a estima, dize que estás arrependido da vida passada, aceita um emprego, enfim vê se te constituis seu herdeiro universal... mas lembra-te que é o meio único de teres dentro de pouco tempo uma fortuna. Teu tio é um homem achacado de moléstias; qualquer dia bate a bota (ASSIS, 2006, p. 50).


Tentando alcançar a confiança do tio, Luís Soares decide pedir ajuda a ele para conseguir um emprego. Porém, não se trata de ocupação qualquer. É um posto obtido graças ás relações políticas e familiares do tio rico. Um trabalho digno das relações adquiridas pelo velho parente:


Levarás amanha uma carta minha a um dos ministros. Deus queira que possas obter o emprego sem dificuldades. Quero ver-te trabalhador e sério; quero ver-te homem. As dissipações não produzem nada, a não ser dívidas e desgostos... daí a um mês estava empregado em uma secretaria com um bom ordenado.


A herança do major Vilela era, para Luís Soares, a mais concreta chance de sucesso na sua fuga da pobreza. No entanto, junto ao tio morava uma prima de Soares,Adelaide, que era apaixonada pelo moço. Se o tio descobrisse a paixão da moça poderia propor casamento ao mancebo, o que seria difícil de recusar sem desapontar o parente. O que desagrava a Soares não era o casamento em si ou a moça, mas a condição financeira dela. Soares só abandonou a vida devassa por falta de dinheiro e no momento em que conseguisse a herança do tio não precisaria de um casamento.


A paixão de Adelaide era antiga e sabida pelo mancebo. Soares ainda gozava da fortuna quando soube da paixão que lhe tinha a prima. Diante da possibilidade de um casamento com Adelaide seu pensamento pensamento era esse: “Quem tem a minha fortuna não se casa. Mas, se se casa é sempre com quem tem mais. Os bens de Adelaide são a quinta parte dos meus; para ela é negócio da China; para mim é um mau negócio” (ASSIS, 2006, p. 58).


O tio descobre da paixão da sobrinha e propõe o casamento a Luís, que diz não amar a prima. Ele evitava Adelaide o máximo possível. No entanto, o destino trabalhava em seu favor, mas com sua atitude jogava fora a chance de se elevar acima das turbas. Antes de falecer, o pai de Adelaide a confiou aos cuidados do major Vilela e com ele deixou trinta contos de réis para serem dados de dote. No entanto, a maior parte da herança da moça, trezentos contos de réis, foram deixados por seu pai aos cuidados de um amigo da família. Esse homem deveria fazer cumprir a última vontade do falecido, entregando o dinheiro à ela decorridos dez anos da morte do pai. Nesse ínterim, se ela tivesse se casado o dinheiro lhe seria entregue. Mas, se continuasse solteira haveria uma condição para receber os trezentos contos de réis: somente receberia a herança caso se casasse com o primo Luís Soares.


Caso se recusasse a cumprir a clausula o portador ficaria com o dinheiro. O testador não cogitou a possibilidade de Adelaide estar solteira e Luís Soares já ser casado. Mas, como ele ainda estava solteiro e a condição testamentária era clara, cabia fazer-se cumprir a vontade do falecido.


No século XIX era comum as pessoas redigirem testamento fazendo exigências aos seus legatários; o testador exigia de seus agraciados a observância de certas condições para poderem receber o legado. O reconhecimento de filhos ilegítimos, pedido de missas pela alma e alforrias era comum nos testamentos oitocentistas (REIS, 1997).

A partir da possibilidade da herança, casar com prima Adelaide era um “negócio da China” para Soares, mas ele não podia dar a entender que o seu interesse era no legado. O plano era simular que aos poucos se enamorou da moça.


Mas, por mais cautela que Soares usasse sua mudança de atitudes não escapou à sagacidade da prima que adivinhou o motivo. A situação se inverteu. Agora era Adelaide quem se esquivava polidamente. A moça evitava o primo e se recusou a receber as cartas enviadas por ele. Diante da insistência e de uma declaração de amor encenada a moça foi à desforra:


- Trezentos contos! É muito dinheiro para comprar um miserável. E deu-lhe as costas. Soares ficou petrificado. Durante alguns minutos conservou-se na mesma posição, com os olhos fitos na moça que se afastava lentamente. O rapaz dobrava-se ao peso da humilhação. Não previra tão cruel desforra da parte de Adelaide.


A moça percebendo que o primo só se inclinava ao casamento em razão da herança desiste do legado. Mas, o amigo da família, Anselmo, responsável pelo cumprimento da clausula testamentária percebeu a situação e resolveu entregar a herança à moça mesmo sem o enlace com Luís Soares. A família, exceto Soares, embarca em viagem para o velho continente. O final do conto é fúnebre: Luís Soares ao se certificar que perdeu definitivamente, de uma única vez, tanto a chance de um casamento rico com Adelaide como a possibilidade de receber a herança do tio, se suicida.




 
 
 

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