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Análise: Missa do Galo

  • 11 de out. de 2015
  • 4 min de leitura

O conto “Missa do galo” está contido em “Páginas recolhidas”, de Machado de Assis. As palavras-chaves desse conto são crueldade, ironia, sedução e condição feminina. Os personagens principais são: Conceição (esposa de Meneses, a qual aparentemente é submissa a ele); Nogueira (estudante e hóspede de Conceição); Meneses (escrivão; frequenta o “teatro” uma vez por semana).


Contada por meio de um narrador-personagem, a história se passa no Rio de Janeiro, especificamente na sala de Conceição em tempo cronológico: quando o narrador situa fatos com marcações temporais. Porém, em vários momentos o narrador se vale de flashbacks, detalhando psicologicamente as ações das personagens.


Logo no início do conto, o narrador-personagem revela sua ingenuidade, dizendo que nunca foi a um teatro e que gostaria de acompanhar Meneses:


Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana.


A história criada por Machado a ser cômica e irônica: primeiro por conta da ingenuidade de Nogueira em relação a Meneses; segundo porque todos sabem dos casos extraconjugais que Meneses possui, mas ele tenta camuflar do mesmo jeito. Conceição, que sabe de tudo, diz que seu marido é tão bom, trabalha tanto, que tem o direito de traí-la:


Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito. Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. [...] O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.


Conceição é vítima da crueldade de seu marido: a traição. Por sua condição feminina, tem que “abaixar a cabeça” e aceitar. Nesta passagem pode-se perceber que o olhar de Conceição era de tortura, que não aceitava realmente o que passava. Ela apenas se fecha e se cala no seu mundo.


Esse tipo de tortura sofrida pela personagem pode remeter à famosa tortura chinesa, na qual o torturado é amarrado sentado embaixo de uma toreira que pingava água bem ao centro de sua cabeça, de modo constante e durante muitos dias. Diz que, ao início, apenas incomodava o indivíduo por estar molhado, depois o barulho dos pingos na cabeça começa a se tornar insurpotável e chega a provocar feridas no local. Ressalvando que isso se dá numa solitária. Relacionando-se com a vida da personagem, tem-se simbolizados os seguintes elementos: os pingos são as traições constantes, com dia e hora marcados; a solitária se consolida na condição feminina que lhe é imposta pela sociedade. Não só Conceição sofria com a traição, como também sua mãe “[...]a sogra fazia caretas[...]” e a amante de Meneses. Todas sofriam por conta da condição feminina do século XIX.


Conceição demonstra sensualidade por meio dos gestos, não muito pela fala, chamando a atenção de Nogueira, que contava com seus 17 anos, e ela seus 30:


Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.


O jogo de sedução não fica muito claro, como o “dito não dito”. Conceição aparece na sala com sua roupa de dormir, traje sensual. Quando Nogueira fala mais alto, ela chama sua atenção com “mais baixo! Mamãe pode acordar”. Não se pode esquecer duas passagens importantes da conversa dos dois:


- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

- Que velha o quê, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.


Nogueira não consegue identificar as verdadeiras intenções de Conceição, deixando essas dúvidas pro resto de sua vida.


 
 
 

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