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Conto: A Irrelevância do Raio

  • 11 de out. de 2015
  • 5 min de leitura

(Conto de autoria do aluno)


Era uma tarde de domingo, a família Pascal mais uma vez se reunia no sítio do Seu João. O vento colidia nas colunas do galpão onde se encontravam todos e trovões ruíam alto por todo o campo. A chuva não permitira que as atividades do dia fossem postas em prática, então Dona Laura, mãe de dois meninos e esposa do dono do lugar, propôs que os parentes se reunissem no galpão para uma reunião amistosa.


-Essa chuva não vai passar tão cedo, mana. O dia não será nada proveitoso, afinal, não trouxe aquele seu vizinho... Como posso dizer? Interessante. –diz Paola, uma das irmãs de Dona Laura, uma solteirona na casa dos quarenta que nunca passara mais de um ano com qualquer homem. –Nem as bebidas trouxeram! Se estivesse em casa ao menos já teria achado uma companhia.


-Vamos todos ficar aqui sentados o dia todo ouvindo tia Paola falar das suas necessidades? –pergunta Leonardo, o filho mais velho com dezessete anos. Esse era rabugento como o pai, reclamava de tudo e de todos, sempre gritando com seus pais e importunando o irmão.


Seu João afasta os bancos para perto e forma um quadrado para que todos sentem de frente um para outro, tudo propenso para o início das confusões. Pedro, o irmão mais velho de Paola e Dona Laura, permanece calado ao canto de um dos bancos, apenas lendo sua bíblia ignorando sua família a qual julgava inferior e corrompida.


-João, não irá repreender seu filho ao tratar desse modo uma tia? –pergunta Paola quase revoltada com a situação.


-Quando este estiver a falar calúnia o repreenderei. –responde Seu João sentando ao lado de sua mulher.

-Quem pensa que é para falar assim de mim? Acho bom que me respeite, não sou a Laura para aceitar seus abusos. -Paola ataca logo a irmã.


-Não me importo com o que diz, irmã. Sei que é apenas inveja do meu marido, já que nunca conseguiu segurar um. –rebate Laura. Paola solta boas gargalhadas, deixando a irmã confusa.


-Engana-se você, Laura. Nunca quis segurar um marido, ou acha que preciso de um homem para viver a minha vida como uma pessoa normal?


-Podem parar de discutir? –pergunta o menino Marcos, com seus quinze anos. Talvez este fosse o mais sensato dentre esses fúteis seres humanos, sua personalidade introspectiva tornava-o calado e determinado.


Todos ficam quietos por um tempo. O incômodo com a presença do outro atingia os corações da família, odiavam-se como o rico odeia o pobre, olhando com desprezo o que não reconhece. O silêncio entre eles permanece, fazendo com que só a chuva possa ser ouvida ao longo do campo.


O vento balançava o cabelo loiro de Paola formando ondas ao ar, ela pensava como fugir daquele circo de horrores que era sua família. A única coisa que queria era ser feliz, nada mais; ninguém a apoiava e ela não possuía nada a se agarrar. Sua irmã nunca a entenderia sendo essa apenas uma falsa puritana.


-Tia Paola, com quantas pessoas já ficou na sua tão curta vida?-pergunta Leonardo, com a intenção de rebaixar sua parenta na frente de todos.


-Deixe-me ver. –diz Paola sem nenhuma vergonha. Começa a contar nos dedos, até que eles já não eram suficientes para o caso e passa a analisar os números na mente, acaba se perdendo na matemática. –Acho que umas quarenta pessoas...


Pedro abaixa um pouco seu livro para analisar a expressão da irmã, Laura e o marido encaram-na com desprezo, como se aquela notícia fosse uma total desonra a todos ali. Marcos só sorri ao ver os rostos escancarados dos pais e tios, enquanto senta ao lado do avô Paulo, que até ali nem se mexera do banco. Leonardo olha com desdém para a tia, mas parece mais com inveja dom que satisfeito com a resposta.


Pedro levanta de seu assento e parece querer dar um de seus discursos, provavelmente é o que acontecerá.


-Como posso fazer parte de uma família tão corrompida e errada como essa? Como?! Engraçado como todos vocês são diferentes e repetem os mesmo erros sempre, mas não cansam de olhar os defeitos dos outros. O Senhor tem pena das suas almas perdidas e deve querer que através de mim vejam a verdadeira face da vida. Irmãs, sobrinhos, cunhado, pai... Eu estou aqui para salvar...


Os trovões aumentam à medida que o homem louco continua suas palavras de ódio, o vento começa a ganhar força e areia sobe por todo o lado, as árvores balançam e relâmpagos piscam por todos os lados. A família começa a ficar assustada, porém não sabem se é com as palavras do homem ou com a tempestade aumentando. Um clarão cega a todos e a única coisa que conseguem sentir é uma força desconhecida jogando-os para trás.


O trovão deixa a família com os ouvidos zunindo por um tempo. O primeiro a tentar se levantar é Leonardo, que sente suas costelas quebradas e grita de dor. Ele levanta a cabeça e observa seus parentes inconscientes ao chão, os bancos destruídos e a teto caído. Os batimentos dos Pascal eram rápidos e incontrolados, seguiam um ritmo frenético na tarde fria.


O coração do velho Paulo batia cada vez mais rápido, suas mãos tremiam e seu corpo se contorcia pelo chão, os grunhidos eram como os de um cachorro sendo atropelado. Ele agoniza por mais alguns momentos até que chega no limite e seus batimentos cessam para sempre.


-Pai?! -Paola grita pelo pai, mesmo com seus pés estando paralisados pelo choque. Ela se arrasta pelos destroços sem sentir as pernas e segura o pai nos braços, o choro é iminente.


Marcos chega perto do tio que agora tinha um rosto completamente queimado e não parecia mais tão interessado em julgar as pessoas. O sobrinho coloca o ouvido acima do peito do homem desmaiado e não consegue ouvir nada. Pedro não se movia e seus olhos aberto pareciam feitos de vidro, outro membro já não estava ali.


Pode se perguntar, leitor, o que aconteceu após isso. Com duas pessoas da família mortas, os Pascal mudaram? A resposta não estará aqui. E qual seria então a relevância dessa história? Na verdade, nenhuma. Tudo que você leu ate aqui é apenas uma introdução de uma história muito mais complexa que você nunca conhecerá. Quer saber o que acontece no fim? Aquilo que é a única certeza que todos têm na vida, no fim todos morrem.


Leonardo morre aos vinte e dois anos em um acidente de moto. Seu João falece aos cinquenta anos ao cair da laje de uma casa. Dona Laura suicida-se dois dias após a morte do marido. Paola morre em um acidente de avião com o destino à Paris. Todos são enterrados um ao lado do outro, uma grande incoerência se relacionada à vida da família.


Vinte e seis anos após o raio que marcou a história dessas pessoas, Marcos encontrava-se no cemitério olhando os seis parentes ali, impotentes à sua frente. Um companheiro ao seu lado o consolava, porém ele não se encontrava triste nem ressentido pela família.


-Eles se julgaram até a morte. Contudo, agora nada importou. Suas ações não valeram de nada e não importou o quanto eram diferentes, eles acabaram no mesmo lugar. –Marcos fala e vira de costas para as sepulturas. –Vamos, Daniel. Não há mais nada relevante por aqui.




 
 
 

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© Conte Aí do 2º ano de Informática 2015 da Fundação Nokia. 

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